Se eles soubessem o que significava aquela merda toda, teriam esbravejado: “Maldita Salmonella Typhi”. Ao menos, uma oportunidade de protesto. Raros momentos. Raros, por vezes, tão intensos. Nessa raridade histórica, os mais diversos fatores contribuem (ou não) para vitórias, lampejos de luz, ou para fracassos anunciados no brilho fosco de um olhar.
De um lado, o exército ateniense. A inclinação à vitória. A supremacia da cidade-estado, outrora aristocrata, e então, democrática. Seus cidadãos masculinos, 43 mil. Do outro lado, o loser helênico, Esparta, com seus débeis 5 mil. Na guerra entre as duas cidades, deu Esparta na cabeça. O loser e a oportunidade há tanto aguardada. Nem táticas de guerra, nem tecnologia, nem a bravura de espartanos. O fator decisivo para tal zebra grega (ou deveria dizer, bactéria grega) foi uma peste que se alastrou em Atenas. Ah, os raros momentos. Aqueles que fazem toda a diferença. E tão intensos como lacunas existenciais preenchidas. Posso imaginar um moribundo ateniense caído ao chão, manchas rosadas sobre a pele, hemorragia nasal, em derradeiro choque séptico, amparado por um achegado concidadão, que momentos antes do seu último suspiro, sussurra: “Véio, ferrou!”.

Arte: Sattu Rodrigues
Tucídides (famoso pela exatidão de seus textos), em seu livro História da Guerra Peloponense, menciona a tal peste, anônima, fugitiva, obscura, enigmática. Uma bactéria? Um vírus? Quais dentre essa safra interminável de agentes patológicos? Ela passou incólume durante mais de 2400 anos. Mas agora, finalmente, ela foi identificada e encaminhada ao banco dos réus. Segundo a revista canadense Maclean’s, pesquisadores analisaram a polpa dentária dos restos mortais dos atenienses, que pode preservar agentes patogênicos por séculos, permitindo assim identificar o assassino misterioso como sendo a Salmonella Typhi, responsável pela febre tifóide.
Os descendentes dos bravos atenienses, que só perderam a guerra por causa da peste, podem agora, finalmente, descansar em paz.